 |
 |
 |
 |
 |
 |
6.1. Problemática
de estudo
De um modo geral, existe grande homogeneidade nas indústrias líticas provenientes de todos os locais do tipo do da Conceição até hoje conhecidos na margem Sul do estuário do Tejo. Descontados os casos, aliás frequentes, de achados avulsos, o que mais chama a atenção é a ocorrência de grandes quantidades de artefactos, com predomínio para os núcleos e os restos de talhe. Os núcleos, em todos os estádios de fabrico, são dominados por formas volumetricamente reduzidas a duas faces secantes, segundo o modelo discóide ou Levallois. Os utensílios acabados (isto é, de arestas retocadas), embora raros, correspondem bem ao que seria de esperar dos subprodutos de talhe derivados daqueles núcleos: raspadores, denticulados e entalhes, uma ou outra ponta, faca de dorso, etc., sobre suportes pré-formatados ou não.
Atentos estes aspectos gerais e à ausência de tecnologias de talhe ou tipos de utensílios mais característicos de outros períodos do Paleolítico, aliás bem conhecidos no Baixo Tejo (caso dos conjuntos tipicamente acheulenses distribuídos amplamente, desde Alpiarça até ao Montijo e expressivamente representados nas proximidades do sítio de Conceição: cf. ZBYSZEWSKI e CARDOSO 1978), atribuiu-se a estas indústrias uma filiação cultural no Paleolítico Médio. Ficara por esclarecer, todavia, qual a sua mais exacta datação, posto que tal atribuição cobre um segmento de tempo muito considerável, aliás em grande parte indefinido, tanto na sua fronteira inferior como na superior.
Efectivamente, confrontavam-se, na valorização destas indústrias, dois tipos de raciocínios, igualmente legítimos:
- do seu “envelhecimento” para dentro de um hipotético “Paleolítico Médio Inicial”, acentuando certas afinidades técnicas e tipológicas com conjuntos líticos integráveis em “contextos acheulenses” e, por isso, atribuíveis a fases mais antigas (v. por exemplo o caso dos chamados “raspadores nucleiformes sobre seixo”, RAPOSO e CARREIRA 1990);
- a do seu “rejuvenescimento” para dentro de um “Paleolítico Médio Final”, ou até de fases iniciais do Paleolítico Superior, dando ênfase à estandardização acentuada dos métodos de talhe documentados, à própria quantidade extraordinária dos produtos obtidos, aos condicionalismos impostos pelas massas iniciais (seixos rolados de dimensões pequenas e médias) e matérias-primas (quartzito e, mais limitadamente, quartzo) disponíveis ou até à própria natureza funcional das ocupações subjacentes (locais de fabrico), tudo factores que poderiam ser invocados no sentido da inexistência local de utensílios tipologicamente “mais evoluídos”.
Ou seja e de forma mais simples: seria inviável precisar a datação destas indústrias, que podiam situar-se dentro de limites tão extremos como os 100 a 150 mil anos ou os 20 a 30 mil anos. Estas interrogações, já colocadas por um de nós (L. R.) no quadro de um projecto de investigação sobre o Paleolítico Médio do vale do Tejo, justificavam plenamente a observação atenta de qualquer novo sítio deste tipo susceptível de datação mais precisa. Para o efeito, tornava-se indispensável encontrar um local com indústria lítica nas seguintes condições:
- ser abundante e presumivelmente de fabrico local, pela observação dos estados físicos de superfície e pela análise preliminar da ocorrência de diferentes tipos de subprodutos de talhe;
- encontrar-se in situ, de preferência em depósito sedimentar de cronologia geológica conhecida ou susceptível da datação absoluta (designadamente por recurso ao método TL/OSL, por ser aquele que, com os tipo de elementos em presença. poderia fornecer melhores resultados).
|
|
|
 |
 |
|
|